Resenha: Histórias e Conversas de Mulher, de Mary Del Priore

quarta-feira, abril 23, 2014

Há algum tempo tenho estado em uma forte onda feminista. Estou interessada em discussões de gênero e assuntos que digam respeito de alguma maneira a pauta da causa. Foi nesse contexto que me interessei em "Histórias e Conversas de Mulher" de Mary Del Priore. O problema é que tive de adiar esses planos porque o preço do e-book não andava muito interessante para o meu bolso. Essa situação durou até o "dia internacional da mulher", quando o livro digital entrou em promoção por um longo período e pude finalmente tê-lo para mim.

De dez de março - quando o comprei - até 12 de abril - data no qual terminei de ler - passou-se um longo tempo. Longo porque normalmente leio livros de não-ficção como uma forma de limpar a mente após muitas leituras ou após livros que me impressionaram. Passei por ambos os casos, com livros que li para resenhá-los para o Cabine Literária e também com alguns que se tornaram os meus preferidos, como "As memórias Perdidas de Jane Austen". Seja como for, demorei a ler porque o fiz bem aos pouquinhos e agora estou aqui para resenhá-lo. Antes tarde do que nunca.



Histórias e Conversas de Mulher
Autora: Mary Del Priore
Editora: Planeta | 312 páginas.
Namoros com homens mais jovens. A paixão por usar botinhas de salto. Corpo trabalhado artificialmente para projetar seios e nádegas e assim ficar mais voluptuoso. O uso de cremes com ingredientes naturais para clarear a pele. Sim, a vida de algumas sinhás do século XVIII lembra a de uma mulher do século XXI... mas só na aparência. Foram necessários mais de 200 anos para que as mulheres conquistassem direitos que permitem a livre expressão e o exercício da cidadania - votar, usar anticoncepcionais, divorciar-se, ir à praia de biquíni, ocupar cargos de alto escalão em empresas multinacionais e muitas outras coisas. Este livro revela como evoluiu - e se revolucionou - a vida das brasileiras, dos tempos da colônia portuguesa ao início do século XXI.

A linguagem de Mary Del Priore é bastante simples e convidativa. Não seria exagero dizer que ela é capaz de levar o leitor sem a menor dificuldade através de suas páginas. E há considerações para toda a sorte de temas, desde os tempos mais antigos até as aflições atuais, o que torna as ideias expostas algo bastante contextualizado especialmente no tocante a revolução sexual, os sonhos de casamento e também aos sacrifícios impostos por uma cultura de juventude e vaidade, sobre a ideia de prisão que vem com esses últimos quesitos, tidos como quase obsessão em tempos onde deveríamos estar libertas de tais neuras:

"Dando ou não dando, a brasileira continua a construir a identidade através do olhar do homem: do macho ou do príncipe. É ele quem escolhe a liberta ou a libertina. As que transformam o corpo apenas num mecanismo de proezas sexuais tem de lidar com consequências nem sempre desejadas: gravidez, DSTs, solidão, quando o corpo não é mais tão jovem. Na outra ponta, como demonstra Sarah Sheeva, a tradição não é opressiva. Para muitas a liberdade sexual é um fardo, e elas tem nostalgia da velha linguagem do amor, feito de prudência, tal como vivenciaram os avós. A pergunta que fica é: quando vamos ser nós mesmas, sem pensar em como ou quanto os homens nos desejam? Sem ter de escolher entre ser santa ou p...?"

"Mais do que nunca, a mulher sofre prescrições. Agora não mais do marido, do padre ou do médico, mas do discurso jornalístico e dos publicitários que a cercam"

"Se as mulheres orientais ficam trancadas num espaço determinado, o harém, as ocidentais têm outra prisão: a imagem. E são açoitadas para caber nela: eternamente jovens, leves e saudáveis."

Convenhamos, é um choque de verdades.

Não tenho muito a falar a respeito da obra. Não sou historiadora para saber de que modo certos itens são organizados e montados para compor o livro e a pesquisa me parece bem feita. A princípio o livro parece se ater a história, mas não é o caso já que se mostra dotado de opiniões interessantes. As vezes, mostra-se tedioso com alguns dados intermináveis, mas é um risco comum para aqueles que se prestam a oferecer o maior número possíveis de informação para contextualizar assuntos importantes.

Em suma, é um livro que dá muito o que pensar. Recomendo.

Pelo conjunto da obra, três corujas:

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