Resenha: A Rainha Normanda, de Patricia Bracewell

segunda-feira, julho 20, 2015

Romances históricos me encantam. Especialmente se forem sobre pessoas que realmente viveram. Gosto de ver como foi feita a pesquisa e a reconstrução histórica da vida daquele personagem e poder olhar melhor para aquele mundo passado. A Rainha Normanda tem uma protagonista forte, a rainha Emma, da Inglaterra e que viveu em um mundo controlado por homens e pela violência.




Sinopse
Em 1002, Emma da Normandia, uma nobre de apenas 15 anos, atravessa o Mar Estreito para se casar. O homem destinado a ser seu marido é o poderoso rei da Inglaterra, Æthelred II, muito mais velho que ela e já pai de vários filhos. A primeira vez que ela o vê é à porta da catedral, no dia da cerimônia. Assim, de uma hora para outra, Emma se torna parte de uma corte traiçoeira, presa a um marido temperamental e bruto, que não confia nela. Além disso, está cercada de enteados que se ressentem de sua presença e é obrigada a lidar com uma rival muito envolvente que cobiça tanto seu marido quanto sua coroa. Determinada a vencer seus adversários, Emma forja alianças com pessoas influentes na corte e conquista a afeição do povo inglês. Mas o despertar de seu amor por um homem que não é seu marido e a iminente ameaça de uma invasão viking colocam em perigo sua posição como rainha e sua própria vida. Baseado em acontecimentos reais registrados na Crônica Anglo-saxã, A rainha normanda conduz o leitor por um período histórico fascinante e esquecido, no qual fantasmas vigiam os salões do poder, a mão de Deus está presente em cada ação e a morte é uma ameaça sempre à espreita.

Governando na época compreendida entre o rei Artur e a rainha Elisabeth I, a rainha Emma é uma heroína inesquecível cuja luta para encontrar seu lugar no mundo continua fascinante até hoje.

O livro

A Rainha Normanda é o primeiro livro de uma trilogia que tentará retratar a vida de Emma da Normandia, que com 15 anos foi enviada para a Inglaterra para cumprir um tratado: casar-se com o rei inglês numa tentativa de comprar a lealdade da Normandia que sempre tinha portos abertos para os noruegueses e dinamarqueses em suas expedições vikings. Isso assustava o rei inglês Æthelred e medidas para garantir a segurança da Inglaterra foram cobradas. Seu tratado com o duque da Normandia, irmão de Emma, era não apenas casar-se com Emma, mas torná-la rainha consorte, o que aumentava seu poder sobre o rei inglês.


Emma achava que qualquer bom casamento da família seria de sua irmã Mathilde. Tanto que quando viu a agitação no palácio, pensou que era disso que se tratava. Depois de dias de tensas conversações e do estado de saúde de Mathilde piorar de suas constantes crises de saúde, a revelação: era Emma quem iria para a Inglaterra.

Sabendo que tinha que cumprir seu dever, Emma vai, sabendo que muita coisa depende de sua atuação na corte. O rei Æthelred II, 20 anos mais velho, acabara de ficar viúvo, tendo deixado vários filhos e havia muita especulação sobre o anúncio do herdeiro do trono. Este é um rei perturbado pelas visões do irmão morto, que era o herdeiro original e as implicações dessa morte. E ele não recebe Emma com cortesia, ela é tratada com frieza por todo mundo, até pelos filhos do rei, que deixam claro que a odeiam. Ela constantemente lembra do que sua mãe disse antes da viagem: você é a mais forte para aguentar as agruras que virão.

E como Emma sofre... Há uma imensa pressão para que a rainha engravide e chegam a boicotar uma de suas gestações com um chá abortivo. Se sua posição na corte não se firmar, ela pode acabar afastada do rei com a alegação de ser infértil, ser enviada para um convento e qualquer amante do rei assumiria seu lugar. O rei é também um homem violento. Ele bate e estupra Emma, alegando que isso fará com que sua "semente" se fixe na rainha, o que quase destrói sua vida.

Como se não bastasse tudo isso, Emma ainda é o alvo da fúria de Elgiva, filha do ganancioso conde da Nortúmbria e que se aproxima do rei querendo ser sua amante. Emma se sente isolada na corte, nutrindo um amor proibido por Athelstan, o filho mais velho do rei, sabendo que não pode se entregar a isso.


Ficção e realidade

Eu sempre fico com uma sensação de incômodo quando leio livros com explícita violência à mulher. Percebi que a intenção da autora não foi de colocar um estupro e um espancamento para dar ~força~ à personagem (a desculpinha que vimos em Game of Thrones). A intenção foi justamente a de retratar o ambiente violento da Idade Média e de como uma mulher vivia sob o risco múltiplo do marido, dos inimigos dele, da corte e da vida em si. Emma sofre com agressões verbais do rei o tempo inteiro, com os olhares atravessados de muitos dos nobres leais ao trono e vive sufocada pela impossibilidade de se locomover como quiser pelo reino.

É claro que a cena incomodou. E muito! Não é fácil pensar e imaginar a cena, sabendo que aquilo aconteceu e acontece na vida das mulheres ainda hoje. O estupro marital é ainda mais difícil de provar que o estupro causado fora de um casamento ou relacionamento, pois há a ideia de que a mulher não pode negar sexo para o companheiro. A situação de Emma é muito pior quando se leva em conta a questão da sucessão do trono, pois se ela não engravidasse, sua própria vida estaria em risco. Emma era uma garantia para a Normandia e um incômodo para o rei, que não fazia questão em esconder isso.

Emma é tida como a primeira das grandes rainhas medievais. Ela é a figura central em Encomium Emmae Reginae, uma fonte para as políticas do século XI, um compêndio feito a pedido de Emma, em 1040. Por volta dessa época, Emma era a mulher mais rica da Inglaterra, tendo um poder político grande e muito invejado até mesmo pelos antigos barões.

Título: A Rainha Normanda
Título original: Shadow On The Crown
Autora: Patricia Bracewell
Páginas: 400
Editora: Arqueiro


Avaliação

Apesar de todo o incômodo gerado pela obra, a autora foi bem sensível em retratar a vida de Emma. A violência foi mostrada como uma consequência horrível da vida das mulheres e temos amplas visões dos pensamentos de Emma, que não é uma espectadora, é uma protagonista ativa na trama e que começa a ficar mais esperta conforme seus meses na corte passam. Recomendo a leitura, com o alerta para uma cena de estupro. Quatro corujas.

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3 comentários

  1. Fiquei curiosa pra ler. Até por que, li uma boa parte dos livros do Uthred (eu não lembro o nome da série, é um do Cornwell), e gosto muito de ler várias versões e diferentes pontos de vista da mesma época. Pena as cenas de violência... Guerra eu leio de boa, mas assim... eu fico um pouco chocada demais pra continuar. Tomara que a curiosidade seja suficiente pra eu ler o livro todo.

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    1. As Crônicas Saxônicas, do Cornwell me incomoda também pela forma como ele retrata algumas das mulheres. O Uthred passa o rodo no país inteiro, até na filha do rei. rs

      Mas sim, era um período de violência, nem sempre é fácil ler cenas assim. =S

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    2. o Uthred é um porre. Ele é todo errado e zoado. Mas eu fiquei curiosa pra ler de algumas coisas da invasão dinarmaquesa, e continuei. Esse livro, talvez ele tenha se preocupado mais com a pesquisa do que com as personagens, por que a Nimue e a Guinevere dele são tão legais (enquanto tentam roubar o reino etc)

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