Resenha: Riacho Doce, de José Lins do Rego

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Admito que sempre tive curiosidade pela leitura de "Riacho Doce". Na verdade foi influência da minissérie da qual nunca assisti e só me recordo pelos comerciais da época, mas apesar do interesse acabei deixando de lado. Mas meu interesse ressurgiu quando percebi que estive lendo pouquíssima literatura nacional em 2015, de modo não pensei duas vezes antes de ceder a curiosidade. Foi assim que tive meu primeiro contato com a obra de José Lins do Rego:

O livro



Sinopse: Riacho Doce, uma pacata vila de pescadores em Maceió. Cenário de mistérios, traições e de uma grande paixão. Um casal de suecos chega a Alagoas, e a loura Edna se extasia com a força tropical do país que ela descobre. Apaixona-se por um mestiço nordestino, Nô, uma das figuras mais empolgantes de toda a rica ficção do autor. O envolvimento de Edna e Nô é o núcleo desse romance em que a força do Nordeste rústico é mostrada através dos sabores, das formas e das cores. Em Riacho Doce, José Lins do Rego nos dá, a sua visão dos desequilíbrios sociais e dos dramas humanos individuais e coletivos, provocados pela extração do petróleo em Alagoas.  

Utilizando o recurso do narrador onisciente e dividido em três partes, (Ester, Riacho Doce e Nô) o livro começa abordando Edna, diante das lembranças do dia em que partiu da Suécia relembrando sua vida e sua infância e adolescência no local, em especial os momentos em que sua fragilidade emocional começa a ser visível para o leitor. Fragilidade essa que já naquela época a levou a extremos, como uma tentativa de suicídio e que será uma constante durante sua vida. 

No decorrer da trama, vemos Edna, já casada com o engenheiro Carlos optarem por uma grande guinada na vida, quando o marido engenheiro, foi convidado para trabalhar com a exploração de petróleo no Brasil. Uma vez em Riacho Doce, ela se envolve imediatamente com a vida local, com longas caminhadas e banhos de mar. E então ela conhece Nô, e iniciam um romance proibido, que desperta a ira de Aninha, avó de Nô, que vê na galega o desvio do neto daquele que deveria ser o seu destino.  


Avaliação


Sendo esta a minha primeira experiência com a obra de José Lins do Rego, não sei se esse tipo de narrativa é uma constante em seus trabalhos, mas devo dizer que gostei muito do que encontrei. Achei a escrita em si e a ambientação algo muito bem trabalhada, de um jeito que visualizei Riacho Doce de uma maneira mais bela que o mostrado na minissérie. O contraste da gelada Suécia com a explosão tropical brasileira foi incrível e eu quase pude sentí-la na pele. Cada palavra colocada de uma forma suave e delicada, quase mágica.

Os personagens vieram nessa mesma toada, muito bem construídos e com uma narrativa que permite ao leitor estar completamente imerso na mente deles, entendendo a lógica de cada pensamento e gesto. Mas no meu caso houve um efeito colateral: não consegui sentir empatia por ninguém. De uma maneira ou de outra, todos os personagens chegaram ao ponto de me causar aversão e até exaustão durante a leitura, em especial o casal protagonista. A narrativa de Edna/Eduarda, me exauriu tanto pela fragilidade de sua psique quanto por sua inconstância - o que me deixou curiosa a respeito de qual seria o diagnóstico atual de um especialista em saúde mental a respeito da personagem. Já as mençãos a Nô me deixavam exausta por sua prepotência inicial e, posteriormente, por sua fraqueza.

O meu sentimento de exaustão pode ser atribuído não somente a uma densidade na construção de personagens, mas também pelo modo como o livro foi escrito. Tanto Edna quanto Nô parecem ter problemas com obsessões: seus pensamentos e sentimentos são repetidos, passados e repassados ao limite, o que reforçava o caráter sofrido da leitura e também me dava ganas de meter a mão tanto em ambos, uma vez que seus piores defeitos vinham a tona facilmente, assim como os erros de julgamento. Para leitores impacientes o efeito pode ser tedioso, mas essa forma de escrever ressaltou o modo como os pensamentos e reflexões dos personagens se desenvolveram e culminaram em atos tão extremos.

"Riacho Doce" não é uma obra de leitura rápida. Ela é densa, requer paciência e, a primeira vista ,carece da ação que muitos leitores estão acostumados uma vez que muitos julgam o livro como 'arrastado'. Mas, pelo contrário: uma vez que você se acostuma, acabará descobrindo que não falta ação, beleza e magia.

Quatro corujinhas.


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1 comentários

  1. Achei tua resenha através de uma busca no Google, precisava saber mais sobre o contexto todo dessa obra, tanto da literária, quanto da tele-dramatúrgica. Eu sou o Leonardo, de Olinda - PE e amanhã estou de partida pra o distrito de Carne de Vaca, em Goiana, litoral norte, aliás, a última praia do litoral norte pernambucano antes da divisa com o estado da Paraíba. Estou seguindo as pistas dessa história, a tele-dramatúrgica, principalmente, pois vou documentar pro meu blog, O Reverso do Mundo, o lugar onde foram feitas algumas das cenas da minissérie. Não sabia que o Riacho Doce do livro ficava em Alagoas. Fiquei sabendo aqui no teu texto. Apenas soube que os produtores da Globo foram parar aqui em PE, na tal praia, por causa da concorrência com a finada Rede Manchete (olha só! Manchete!)
    Teu texto me trouxe vários detalhes que com certeza vão ser de valia pra quando eu for tirar as fotos e redigir... não, não vou copiá-lo, imagina! Mas já com essas infos na cabeça, a gente percebe melhor o clima e tenta, na medida do possível, passar tudo pra as imagens e pra narrativa sobre a praia onde as cenas foram gravadas.
    Abraço e tudo de bom

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