Resenha: O Círculo, de Dave Eggers

quarta-feira, junho 10, 2015

Uma época onde as inovações tecnológicas aproximam tanto as pessoas que a ordem do dia é "compartilhar conhecimento". Dias nos quais esquecemos o significado de privacidade ao ponto dela passar a ser considerada algo a ser combatido. Esse é o universo de "O Círculo", escrito por Dave Eggers, mas também pode ser o mundo para o qual estamos caminhando.


"O Círculo" - Dave Eggers
Editora: Companhia das Letras | 528 páginas
Encenado num futuro próximo indefinido, o engenhoso romance de Dave Eggers conta a história de Mae Holland, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo: O Círculo. Sediada num campus idílico na Califórnia, a companhia incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única em por consequência, uma nova era de civilidade e transparência.

Para dizer a verdade essa não era a resenha planejada já que ainda estou me esforçando para eliminar o atraso nos posts do blog e essa foi uma das minhas últimas leituras, mas a Sybylla do Momentum Saga insistiu tanto que acabei não resistindo. Outro ponto foi que passei um bom tempo com esse livro em mente a ponto de precisar falar dele com alguém. Ou seja, você vai ter que me aturar.

Sobre a história:

Bom, vamos lá. O livro é narrado sob a perspectiva de Mae, uma jovem deslumbrada com a oportunidade de trabalhar no Círculo e que sempre teve ambições elevadas e típicas da atual geração no mercado de trabalho: ser útil, se sobressair, ter satisfação e sair daquilo que considera um marasmo e desperdício dos seus dias, como é o caso o seu último emprego em uma empresa pública, por exemplo. Ou seja, se você lê alguma matéria de sites ou revistas com foco em administração, já deve ter entendido um pouco do que estou falando a respeito do perfil da protagonista. E claro que ela fica encantada tanto com a grandeza do Círculo quanto com a preocupação com a transparência e integração entre os funcionários. Óbvio também que ela fará de tudo para estar dentro dos padrões de exigência desse paraíso.

Uma vez inserida no ambiente deslumbrante do Círculo, além do seu trabalho no setor de Experiência do Cliente - setor aliás com alta cobrança de desempenho - ela também deve participar dos inúmeros eventos do local, e principalmente ser ativa nas redes sociais pertencentes a ela. Mae também deve upar todas as suas fotos, arquivos pessoais e músicas na nuvem o que ajuda a incrementar sua participação e sob pretexto de que assim seus colegas podem conhecê-la. E essa inserção é tão grande que aos poucos ela vai comprando as ideias presentes no local, sem sequer pensar muito tempo a respeito de sua viabilidade ou de seus absurdos, aceitando assim a ideia de que a privacidade não é algo natural.

Vale lembrar que no contexto colocado no livro, o anonimato na internet é algo que ficou no passado, o que torna a ideia de negação da privacidade algo mais presente e aceitável aos personagens. Com o advento do TrueYou, idealizado e construído pelo Círculo, todas as identidades tanto virtuais quanto reais foram unificadas de maneira biométrica. Não era necessário lembrar de mais nenhuma senha, por exemplo, já que não havia necessidade de lidar com diversos sistemas diferentes. E com isso era praticamente impossível se esconder por trás de fakes. Ou seja: uma rede absolutamente transparente. Porém, não é o bastante. É sempre possível ir além.

Legenda: "Segredos são mentiras". "Compartilhar é cuidar", "Privacidade é roubo".

Aos poucos descobrimos alguns dos lemas que passam a ser presentes no Círculo: "segredos são mentiras", "compartilhar é cuidar", "privacidade é roubo". As invenções que passam pelo crivo dos fundadores e são desenvolvidas no local tem tudo a ver com monitoração, porém sempre com uma "boa causa" por trás: câmeras ultraleves e pequenas que podem ser instaladas em qualquer local e sem permissão, dispositivos de alarme que captam presença de pessoas estranhas em vizinhança e até mesmo dentro de casa, rastreamento de produtos consumidos nas residências para verificar consumo e produzir sobre demanda e evitar prejuízos, instalação de chips que unificam dados de crianças para evitar sequestros e desaparecimentos. E isso porque "tudo que acontece deve ser conhecido."

Isso é tão levado a sério que, em determinado momento ela passa a carregar uma câmera durante a maior parte do dia, tornando-se transparente (sem segredos). Ela é seguida por internautas e que tem acesso tanto a nuvem quanto aos seus dados de saúde, por exemplo que são monitorados em tempo real. Isso a afasta de família e amigos, mas a torna supostamente próxima de milhões. E a expectativa é de que o Círculo se feche devido a novidades tecnológicas, o que poderia eliminar de vez todos os resquícios de privacidade: um cenário de transparência massiva, com indivíduos transparentes e rastreáveis desde o nascimento até sua morte passa a ser uma meta corporativa.

Isso parece familiar?

O livro tem a ver com a realidade?

Sim, tem muito a ver. Durante muito tempo comparamos a nossa vivência atual com ênfase em vigilância ao célebre "1984": uma distopia no qual as pessoas vivem em um regime totalitário controlado por um estado claramente opressor, sendo todos estão ali por obrigação. Porém, "O Círculo" está bem próximo do que vivemos hoje, já que abrimos mão voluntariamente de nossa privacidade em nome daquilo que chamamos de "comunhão", mas que na verdade se trata de "visibilidade", pelo menos na maior parte do tempo.

Os comportamentos descritos nas páginas do livro também são bem fáceis de encontrar nas redes sociais.  A carência extrema, as relações distorcidas, o desejo de ser visto e a forma como quase tudo - notificações ou conversas que deixamos de entrar ou responder por falta de tempo ou vontade - é interpretado como algo pessoal. Os grupos de Facebook estão cheios de usuários com essas características. Basta parar e observar.


Outro ponto interessante e aplicável a realidade é que não cabe pensamento consciente na rotina desempenhada por Mae: entre trabalho e manutenção constante de suas redes sociais em seu crescente status não há um minuto sequer que seja possível desenvolver uma linha de raciocínio coerente. Dessa forma a lavagem cerebral que a afasta dos íntimos mas a aproxima de milhões sequer soa estranha. Tudo se justifica por uma boa causa e por elas existe um preço a pagar. Mae crê sinceramente que vigilância massiva é um preço pequeno porque ela quer "ser vista" Ela acha mesmo que a fonte de toda angústia seja gerada pela ideia de "não saber" e que a vigilância é algo positivo.

Seja em nome da segurança ou do simples desejo de querer ser visto, existe o sério risco de perder a privacidade.  O produto e o preço, tudo depende da sua percepção.

Avaliação do livro:

Devo dizer que minha experiência com "O Círculo" gerou sentimentos dúbios Provavelmente não fui a única, afinal pelas resenhas que li pude perceber reações bem distintas de amor e ódio. Quem odiou usa a narrativa mal construída, cenas mal descritas e construção de personagens rasos para justificar o pensamento.  Já quem gostou pode até considerar esses obstáculos, mas destaca que ele deixou um saldo positivo por sua crítica social poderosa. E devo dizer que estou com eles, porque a despeito de tudo o que pude considerar falho, as reflexões foram maiores.

Ok, vou explicar minhas razões: com exceção de Mae, todos os demais personagens são rasos, porém isso faz sentido já que tudo se passa sob a perspectiva dela. Está tudo sob olhos de Mae, tudo filtrado de acordo com as percepções da protagonista, a quem consideramos tola e irritante. Aliás, é fácil incluir a personagem em um top five de personagens odiados: ela é imatura, se joga de boa vontade em uma armadilha e sequer faz um esforço para enxergar o que acontece a sua volta. Só que, por mais que possamos odiá-la devido a sua tolice, cabe também analisar o que somos no nosso dia-a-dia. O comportamento de Mae é bem familiar Não é difícil entender como ela ignora tudo que acontece ao redor: todos somos capazes de fazer esse tipo de coisa. Se puxar pela memória, com certeza você encontrará uma ocasião onde foi ou agiu exatamente do mesmo jeito.

Somos mesmo tão mais espertos que Mae? Somos mesmo tão inteligentes quanto julgamos ser?  Talvez todos sejamos um pouco Mae, infelizmente.

Avaliação? Quatro corujas e uma forte indicação de que leia e tire suas próprias conclusões.

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1 comentários

  1. Resenha ÓTEMA! Melhor que a minha. =P

    Acho que a principal reação da galera com o livro foi justamente a questão do ponto de vista da Mae com relação ao que a cercava. Ela acabou ficando tão superficial que tudo à sua volta também ficou. E pensar que ela teve na mão a chance de quebrar o Círculo e não aproveitou.

    O que mais me assustou no livro é ver que tudo o que ele relatou não está longe da gente. Enquanto outras distopias mostram mundo arruinados e reconstruídos sobre a ruína, O Círculo nos mostra uma distopia pra lá de real, porque as reações sobre ele e sobre toda a conectividade são muito presentes no nosso dia a dia de redes sociais. Vemos aquele exagero das reações todo santo dia e quando aparece num livro a gente se espanta e acha estranho.

    Fico chateada de ver que tem gente que não entendeu o livro e ainda soltou resenhas raivosas e ignorantes por aí. Acho que ele leva a tantas reflexões que é um desperdício não ler.

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