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A Garota da Biblioteca

Romances fofos e com clichês? Sim, amo e nunca neguei. Livros são elementos da história? Yay! Já tô lá com o livro em mãos ou em e-reader! Sim, isso quer dizer que eu fui com tudo, mas infelizmente o resultado não foi dos melhores. Pelo menos rendeu uma resenha...   

Resenha: A pequena livraria dos sonhos, de Jenny Colgan










Sobre o livro

“Nina Redmond é uma bibliotecária que passa os dias unindo alegremente livros e pessoas – ela sempre sabe as histórias ideais para cada leitor. Mas, quando a biblioteca pública em que trabalha fecha as portas, Nina não tem ideia do que fazer.

Então, um anúncio de classificados chama sua atenção: uma van que ela pode transformar em uma livraria volante, para dirigir pela Escócia e, com o poder da literatura, transformar vidas em cada lugar por que passar.

Usando toda a sua coragem e suas economias, Nina larga tudo e vai começar do zero em um vilarejo nas Terras Altas. Ali ela descobre um mundo de aventura, magia e romance, e o lugar aos poucos vai se tornando o seu lar.

Um local onde, talvez, ela possa escrever seu próprio final feliz.”


O que achei


Antes de mais nada é importante entender que eu tinha expectativas a respeito do livro. Não é de hoje que ficava de olho na autora, sabendo que ela escreve justamente histórias com elementos que adoro. Fiquei muito feliz quando soube que teríamos livros dela aqui no Brasil e rapidinho foi para minha lista de desejados. Só que infelizmente tenho problemas com expectativas: na maior parte do tempo elas não se concretizam.

O livro é bem leve. A narrativa é delicada e a construção do cenário e da atmosfera é bem fofa. O problema é que não consegui me envolver ou me importar com os personagens, mesmo a protagonista. Gosto de romances sobre livros - com livrarias ou bibliotecas - mas não consegui me envolver com Nina, com sua compulsão literária ou o desenvolvimento da história em si. Visualizei o cenário durante a leitura, mas era como se não fosse nada demais. Não consegui suspender a descrença a ponto de acreditar na história ou nos acontecimentos, mesmo quando pareciam ser interessantes. 

Outro ponto é que não consegui encontrar química entre o casal principal, não vi nenhum chamariz no triângulo criado pela autora ou a mínima graça no recurso. Ela deu muita atenção a um determinado personagem e aí vai lá e pá! Tira um dos elementos desse triângulo da história de uma forma bem… meh. Foi como se esse ponto tivesse se desenvolvido de maneira preguiçosa porque não sabia o que fazer com os personagens no fim das contas.

Apesar disso, pode ser uma boa opção para quem está atrás de um romance, uma leitura rápida, divertida ou do tipo que não vai provocar uma ressaca literária.

Ainda espero ler mais livros escritos por Jenny Colgan, mas esse começo não foi dos mais promissores. Por hora vamos de duas corujas (e talvez meia).

A curiosidade pelo que acontece no mundo das elites parece ser uma constante. E claro, não apenas a curiosidade como também a inevitável vontade de dispor das mesmas possibilidades. O que poucos são capazes de ver é que nem todo dinheiro e privilégio são capazes de expurgar o tédio ou o quanto esse esforço para evita-lo podem levar a uma degradação talvez irreversível. É um panorama desse mundo que promete o livro de estreia de Marcelo Vicintin, publicado pela Companhia da Letras.


Sobre o livro:

“Dizem que o dinheiro não muda ninguém, apenas desmascara; e é num mundo sem máscaras que as predileções humanas ficam mais claras.” Esta é a síntese de um romance em que dois narradores privilegiados se alternam para contar cada um a sua história. Um deles é Egydio, herdeiro de uma empresa de navegação, que cumpre pena em prisão domiciliar após ser flagrado por uma força-tarefa da Polícia Federal; a outra é Marilu, espécie de arrivista em busca da imagem perfeita, mergulhada num presente frenético e incerto. São personagens que não buscam a simpatia do leitor, pelo contrário. Mas seu encanto está justamente no que neles há de corrompido. É necessário considerar as nuances da escrita ― a meio caminho entre a paródia e a crítica, procurando abarcar um contexto muito mais amplo, o do Brasil desse início de anos 2020 ― para que se possa adentrar no coração desta que, sem dúvida, é uma das estreias literárias mais corrosivas e corajosas dos últimos anos.”

O que eu achei

as sobras de ontem de marcelo vicintin


Escrito em primeira pessoa, a história é contada pelo ponto de vista de dois personagens: um herdeiro e empresário em prisão domiciliar e uma vaidosa alpinista social de um modo no qual espera-se que estejam intercaladas. Logo de imediato é possível notar diferenças gritantes nas vozes dos personagens:

Egydio, o herdeiro da empresa de navegação da família é um sujeito com uma vida interior intensa, digamos assim. Talvez por ele estar tomado pelo tédio ele tenha muito a dizer. Muito, muito mesmo. Infinitas e infinitas páginas mesmo quando ele não tinha nada a dizer ou acrescentar. Muitas digressões sendo que poucas representavam algo para a trama. Verborragia mesmo.

Tudo isso muda quando a narrativa passa a ser de Maria Luiza. Talvez refletindo sua superficialidade como alpinista social, ela tem pouco a oferecer. Mesmo sua história é considerada secundária. Toda a verborragia pertence a Egydio. A ela cabe aquilo que é considerado fútil e sem importância. Mesmo os momentos em que hábitos descritos são os mesmos parece que o peso dado aos acontecimentos é diferente. Maria Luiza é vista como ambiciosa porém simplória: um retrato dos tempos atuais. Já Egydio também é ambicioso, mas também puro enlevo. Digamos que ele se justifica de uma maneira que consideramos melhor, ou talvez apenas deixamos de dar atenção porque afinal é um sujeito rico, de família respeitável e chato pra caramba.

Algo que me deixou desconfortável a respeito foi a simplicidade no tratamento de Maria Luiza. Atribuo esse ponto ao fato de que deve ter sido mais fácil e confortável para o autor escrever e formular o que dizia respeito a Egydio. Enquanto ele ficou a cargo de toda verborragia e dono dos holofotes, Maria Luiza acabou coadjuvante em um livro no qual deveria ser uma das protagonistas. Diante disso não haveria prejuízos a história caso o livro fosse menor. Pelo menos haveria um equilíbrio.

Durante o livro você espera que a história de ambos acabe interligada de algum modo. Bom, quando isso ocorre não é de uma maneira completa, mas sim algo dispensável. Algo que o leitor mal notaria a menos que esteja prestando atenção.

Fiquei um tanto decepcionada pelo final. A narrativa se perdeu e o desfecho soou estranho. O recurso de finais em aberto pode ser interessante a depender das circunstâncias, mas não funcionou nesse livro,  ou pelo menos não do modo como foi formulado.

Na minha avaliação dou três corujas e é o bastante.

Título: As Sobras de Ontem

Autor: Marcelo Vicintin

Publicado em: 2020

Páginas: 216


Preciso ser sincera e dizer que não aprendo mesmo. Mais uma vez tive grandes expectativas em relação a um livro e mais uma vez saí decepcionada. Não interessa que expectativa seja mãe da decepção que eu vou lá e crio assim mesmo. E foi isso que aconteceu quando li “Observações sobre um planeta nervoso” de Matt Haig. 




Sinopse: 

 
"Após anos convivendo com a depressão e as crises de pânico, Matt Haig percebeu que determinadas interações nas redes sociais agiam como gatilhos para a sua ansiedade. Em uma tentativa de buscar uma saúde mental mais equilibrada no mundo altamente conectado em que vivemos, Haig começou a pesquisar a relação entre a quantidade de informações, imagens e interação virtual ao nosso dispor e nossa sensação crescente de cansaço, solidão e depressão. 

Se somos bombardeados de imagens felizes e temos acesso a todo tipo de informação o tempo todo, por que nos sentimos cada vez mais perdidos e solitários? Por que vemos a incidência de quadros como depressão, ansiedade e síndrome do pânico aumentar? Para o autor, essas perguntas só podem ser respondidas fazendo uma análise da nossa sociedade, hoje dominada pela tecnologia e pela lógica do consumo. Uma de suas conclusões é que o modo como vivemos está projetado para nos fazer perder o controle. 

A partir desse prognóstico, Haig traz propostas para manter a sanidade em um planeta que nos deixa desequilibrados e para buscar a felicidade mesmo com a ansiedade sendo encorajada. Observações sobre um planeta nervoso é um olhar pessoal e fundamental sobre como se sentir feliz, humano e pleno no século XXI."  

O que achei: 

Acho que devo explicar como encontrei e me interessei pela obra. Conheço o autor por conta de uma leitura anterior. "Razões para continuar vivo" é um dos meus livros preferidos da vida e isso foi mais do que suficiente para me deixar interessada em "Observações sobre um planeta nervoso". O problema é que criar expectativas nunca é uma boa ideia.

Devo dizer que não se trata de um livro ruim, mas uma questão de expectativas frustradas. Apenas não era o que eu esperava, de dizer que minha experiência como leitora não foi das melhores porque no fim das contas o livro não era pra mim (nem tinha obrigação de ser). 

A obra é um compilado de textos, rascunhos e reflexões do autor acerca do tema, mesclando saúde mental e a relação que temos com a internet e seus recursos. Alguns desses textos são tão pequenos que sequer chegariam a ocupar meia página. Não se trata de uma obra para uma leitura contínua. Na prática cada texto explora diferentes ângulos e formas para dizer a mesma coisa. Isso faz com que a obra acabe sendo muito repetitiva em determinados momentos. Entendo o recurso, mas não quer dizer que me agrada, pelo menos não da forma como foi elaborado. 

“Observações sobre um planeta nervoso” tem suas pérolas, pontos interessantes aqui e ali. Serviu como um reforço sobre a necessidade geral de avaliar nossa relação com a internet e os impactos das redes sociais sobre a saúde mental de seu público. Mas não sendo minha primeira leitura a respeito do tema, o livro acabou não oferecendo novidades ou novas perspectivas ou algo novo a se pensar, mas sim um relato pessoal. Em alguns pontos senti quase como se fosse algo escrito em um caderno de rascunho, uma primeira versão para ser polida mais tarde. 

Na verdade meu problema foi esperar algo com um pouco mais de estrutura e organização, por mais profundidade ou impacto. Quando vi que não seria o caso esperei que o nome do autor fosse o bastante para aproveitar a leitura. Infelizmente isso também não aconteceu. Nesse caso não posso culpar outra pessoa além de mim mesma. 

Para quem estiver disposto a ler, aconselho que não faça uma leitura apressada. Não é um livro daqueles que se devora, mas sim daqueles que se aproveita melhor quando lido aos poucos, sem alimentar grandes expectativas.

Na minha avaliação, penso que vale três corujas:



Volta e meia minha lista de leitura acaba contando com livros que tenham a corrida como elemento principal. Do mesmo modo, minha lista também foca muito em livros de não-ficção e sobre transtornos mentais. Nesse caso, “Corra para ser Feliz” era uma aposta e tanto para minhas leituras de 2020.

(Sim, eu percebi que já tem um tempo que não posto nada nesse blog, mas devo dizer que minhas leituras continuam funcionando.)

Resenha: Corra para ser feliz, de Bella Mackie


Sobre o livro:

Bella Mackie tem problemas com a ansiedade desde criança, mas um divórcio complicado fez com que ela se sentisse no fundo do poço, sem forças para sequer levantar do sofá, quanto mais pensar em lidar com a rotina e colocar a vida de volta nos eixos. Um dia ela resolveu fazer algo diferente: correr.

Sua primeira tentativa durou cinco minutos, mas o suficiente para que ela voltasse a calçar os tênis e saísse para correr no dia seguinte. A razão? Por alguns minutos ela não chorou, não teve seus pensamentos dominados por pânico, tristeza ou ansiedade. E então ela repetiu o processo, um dia após o outro buscando o mesmo alívio. O livro é resultado da experiência da autora usando a corrida como uma maneira de lidar com a ansiedade e a depressão e encontrar um novo caminho.

O que achei

O livro é interessante, mas acabei travando em alguns momentos. Isso fez com que eu me sentisse incomodada. A leitura tende a ser boa, mas muitas vezes a autora utiliza dados de pesquisas e artigos científicos para falar sobre depressão, ansiedade e a importância dos exercícios físicos. O recurso foi tão usado quebrou um pouco a narrativa. O excesso de dados me deu a oportunidade de trabalhar com a famigerada leitura “por cima”. Não gosto disso, mas acaba sendo um recurso útil nessas horas.

Na minha opinião o livro é mais fluido quando as experiências da própria Bella Mackie são utilizadas. Os relatos a respeito da luta dela contra a ansiedade e a depressão foram ricos o bastante para que o leitor entenda do que se trata. A postura assumida por ela ao contar sua história também oferece uma visão de gentileza e autocompaixão, o que pode ajudar um leitor com dificuldades semelhantes a olhar para si mesmo de modo menos ríspido, mais paciente. Algo muito valioso em dias como hoje, nos quais a tendência dominante é enxergar esse tipo de postura como uma fraqueza indesejada.

Um ponto importante é que Mackie não coloca a corrida como uma cura mágica, mas sim como uma ferramenta que a levou para lugares inesperados. Aliás, ela destaca justamente que não existe uma cura rápida ou uma maneira certa. A corrida foi uma forma de ampliar seu mundo - tão pequeno durante o auge da depressão - para algo cada vez maior. A autora faz questão de frisar que cada um tem a própria história e que as ferramentas utilizadas por um podem não ser as mais adequadas para outro.

Importante mencionar também que em nenhum momento ela ignorou ou demonizou o papel dos medicamentos em sua jornada. Pelo contrário: os resultados alcançados não dizem respeito somente a corrida, mas a um conjunto de elementos devidamente integrados. A mensagem clara é de que não existem curas rápidas, mas existem caminhos. Existe esperança. Isso é o mais importante de tudo.

Título: Corra para ser Feliz
Título original: "Jog On"
Autora: Bella Mackie
Tradutora: Laura Folgueira
Editora: Harper Collins
Páginas: 304
Ano de lançamento: 2019


Avaliação do blog

Confesso que fiquei na dúvida a respeito de como avaliar o livro. Isso porque eu acabava me deslocando muito na leitura quando vinha a avalanche de dados. Em um momento eu estava imersa e um pouco depois já estava praticando a leitura por cima. Optei por quatro corujas por pensar que os percalços valeram a pena.


Boa leitura!

Em 2016 passei por uma período no qual estive viciada em romances de época. Foi nesse tempo que cheguei a ler cinco ou seis livros seguidos desse gênero e comecei essa série. Agora finalmente posso riscar uma coleção da minha lista de leituras pendentes. Rá! *risca, risca, risca com sensação de dever cumprido.*


Sinopse:Daisy Bowman sempre preferiu um bom livro a qualquer baile. Talvez por isso já esteja na terceira temporada de eventos sociais em Londres sem encontrar um marido. Cansado da solteirice da filha, Thomas Bowman lhe dá um ultimato: se não conseguir arranjar logo um pretendente adequado, ela será forçada a se casar com Matthew Swift, seu braço direito na empresa.
Daisy está horrorizada com a possibilidade de viver para sempre com alguém tão sério e controlador, tão parecido com seu pai. Mas não admitirá a derrota. Com a ajuda de suas amigas, está decidida a se casar com qualquer um, menos o Sr. Swift.
Ela só não contava com o charme inesperado de Matthew nem com a ardente atração que nasce entre os dois. Será que o homem ganancioso de quem se lembrava era apenas fachada e ele na verdade é tão romântico quanto os heróis dos livros que ela lê? Ou, como sua irmã Lillian suspeita, o Sr. Swift é apenas um interesseiro com algum segredo escandaloso muito bem guardado?
Fechando com chave de ouro a série As Quatro Estações do Amor, Escândalos Na Primavera é um presente para os leitores de Lisa Kleypas, que podem ter certeza de uma coisa: embora as estações do ano sempre terminem, a amizade desse quarteto de amigas é eterna.

O Livro


Como mencionado na sinopse, o livro gira em torno de Daisy Bowman, no momento sendo pressionada pelo pai a se casar de qualquer maneira. Isso porque seu pai, Thomas Bowman, considera as temporadas de eventos sociais na Inglaterra como desperdício de recursos uma vez que a filha não encontra algum pretendente aristocrata mesmo em sua terceira temporada nos eventos sociais de Londres. Seus planos incluem Matthew Swift, braço direito na empresa e a quem trata como filho. Na prática Bowman, não se sente ligado aos seus próprios filhos, considerando faltar a eles traços como ambição e determinação. Essa situação é um pouco pior com Daisy, com quem ele menos se identifica. Nesse passo, o casamento representa uma forma de Daisy ser útil a sua família, caso contrário, ela se torna uma parasita.

Daisy, conforme o esperado, detesta a ideia pois enxerga Swift como uma cópia de seu pai - frio e ambicioso - e totalmente subserviente as ordens do seu chefe. Além disso, o rapaz sequer tem traços ou características atraentes. A memória de Daisy a seu respeito é de "um saco de ossos", por exemplo. Suas amigas se unem para tentar encontrar outra alternativa, qualquer outro pretendente. Ela só não contava que Swift estivesse muito mudado, muito menos que o rapaz nutrisse sentimentos por ela. Obviamente existe um segredo envolvido, mas sabe quando não é lá essas coisas? Até ocupa algo na segunda metade do livro, mas não chega a representar algo tão importante assim. O livro preza por simplicidade no enredo, sem a menor vergonha. Devo muito agradecer a esse respeito, aliás.

Avaliação:

Antes de tudo, devo informar que "As Quatro Estações" não foi uma série tão interessante assim. Li enquanto estive no vício dos romances de época e interessada no trabalho da autora (gostei muito de "Os Hathaways" e pensei nas leituras dos livros de Lisa Kleypas como um investimento seguro, por assim dizer). O primeiro livro não me interessou muito, mas acabei lendo o segundo e as coisas foram acontecendo. Mesmo quando saí do vício acabei continuando a leitura de maneira burocrática, e agora acho seguro dizer que esse foi um dos livros mais interessantes da série, pelo menos para mim.

O volume se concentra no desenvolvimento da relação entre os dois personagens. Tem um pouco de humor e também de simplicidade. Ok, existe um segredo - aliás alardeado na sinopse - mas estamos falando de algo menor e explorado somente bem mais tarde, perto do fim do livro. Isso dá ao casal um desenrolar de romance sem muito para atrapalhar. As amigas sequer fazem grandes aparições, mesmo em uma coleção cuja temática oferece (ou deveria oferecer) mais que o romance, mas também a amizade. E embora ação seja um componente quase sempre interessante em livros históricos, gostei muito da simplicidade da história.

Apesar disso fiquei um pouco decepcionada com o desenrolar do livro em geral. Esperava um pouco mais do pai de Daisy. Minha pressa em ler "Escândalos na Primavera" definitivamente não foi por ser uma fã da coleação, mas pelo que encontrei na amostra do primeiro capítulo do livro, disponível no terceiro volume da quadrilogia, onde o personagem foi explorado de uma forma interessante:
– Pensei que você desejaria ser útil para alguém – rugiu Bowman. Sempre fora da natureza dele combater a rebeldia com uma força esmagadora. – Pensei que desejaria um marido e um lar em vez de continuar vivendo como uma parasita.
Daisy se encolheu como se ele a tivesse estapeado.
– Não sou uma parasita.
– Não? Então me explique como o mundo se beneficiou com sua presença. O que você já fez para alguém?

Esperei mais nesse ponto. Talvez pai e filha se entendendo de alguma forma, talvez ele pedindo desculpas ou ao menos lamentasse pelas palavras ditas no início do livro.  Foi um pouco triste ver seu seu papel sendo não foi muito mais que reclamar e esbravejar. Eu teria ficado mais interessada caso algo diferente acontecesse nesse ponto. Ou ao menos que essa fala pudesse ser mais explorada no desenvolvimento de Daisy.

Outra coisa me incomodou: acabei perdendo brevemente a noção da época na qual a história se passava. Em um dado momento, é citado o ano de 1937 (quando a referência deveria ser o pânico de 1837). Já em outro temos a menção a um evento em comemoração aos 280 anos do nascimento de Shakespeare. Não é um erro de digitação capaz de incomodar um leitor acostumado a passar direto em certas coisas - normalmente sou assim, mas não foi o caso dessa vez.

Ainda tendo em mente minhas leituras dos trabalhos de Lisa Kleypas ainda gosto mais de "Os Hatthaways" pelo menos no quesito romance histórico. Não resenhei todos os livros de "As Quatro Estações" aqui no blog, mas durante a leitura da coleção senti que o humor não era o forte, soava muitas vezes forçado e cansativo como um todo, mas diante do cenário completo posso dizer que a quadrilogia teve um bom encerramento.

Três corujinhas, se for pensar em um panorama geral do livro.



Iniciando o Desafio Literário 2017 proposto pela Sybylla, acabei fuçando meu Kindle em busca de livros que se encaixassem nas categorias propostas. Foi quando me lembrei de “Precisamos de Novos Nomes” esperando pacientemente em meio a um monte de coleções no dispositivo. Hora perfeita para começar o desafio, não? Então acabei escolhendo essa obra para o quesito "livro com personagem não branco".


Sinopse:
NoViolet Bulawayo nasceu em 1981, no Zimbábue, e fez parte da primeira geração nascida depois da independência oficial do país. Sua infância se passou, portanto, sob um clima de confiança, estabilidade e esperança. Muito diferente do cenário em que vivem Darling, Bastard, Chipo, Godknows, Sbho e Stina, as crianças com nomes peculiares que figuram em Precisamos de novos nomes, seu romance de estreia.
Essas crianças a cada dia tentam fugir de Paraíso, o aglomerado de barracos de zinco onde elas e suas famílias vivem desde que suas antigas casas foram demolidas violentamente a mando do governo. As fugas são para perto, para Budapeste, o bairro vizinho onde roubam as goiabas do quintal das casas das famílias brancas e ricas, ou ainda com as brincadeiras que criam para se distrair do cotidiano entediante sem escola nem comida: fingem procurar Bin Laden para ganhar a recompensa do governo americano; criam um jogo em que os países mais poderosos invadem os países menores. As fugas acontecem também quando sentem um misto de vergonha e empolgação ao se aglomerarem ao redor dos carros das ongs que lhes trazem presentes e roupas inadequadas.
Mas é a vida de Darling, a protagonista-narradora, que o romance acompanha. A menina de dez anos que conhecemos em suas brincadeiras no Paraíso, sonha com o dia em que morará na América. Esse dia finalmente chega e Darling terá de enfrentar o frio, a saudade de sua família e de seus amigos e a adaptação nesse país que nunca vai se tornar o seu país de fato, mas que mudará seu sotaque, moldará o olhar do mundo e a afastará, irremediavelmente, de sua terra natal.
Precisamos de novos nomes é um romance de formação, cuja protagonista ao mesmo tempo precisa enfrentar as novidades da adolescência e da vida adulta que chega e se adaptar a uma terra onde sempre será estrangeira.
Os assassinatos políticos, o estupro, o charlatanismo de alguns religiosos, a aids, a fome, enfim, tudo aquilo que a imprensa ocidental reafirma a respeito dos países africanos estão neste livro, mas muito distintamente contada por uma voz ao mesmo tempo cruel e inocente, a voz de uma criança sensível, esperta e sonhadora.

O Livro:

Narrado em 1ª pessoa, o leitor contempla o mundo com os olhos de Darling, que começa a história com cerca de 10 anos. Seu cotidiano revela um cenário muito longe de uma infância idílica: em plena crise interna, seu país está a beira de um colapso, a pobreza é generalizada, tal como a violência: um companheiro indesejável, porém próximo em todos os sentidos. O ar chega a estar carregado e basta um mínimo ato para que todo o frágil equilíbrio se desfaça e o caos seja a única certeza.

Em meio a todo esse turbilhão, Darling e seus amigos roubam goiabas, procuram brincadeiras para passar o tempo e, de uma certa forma, esquecer o passado e o cenário de incertezas que os cercam, seja nos grandes acontecimentos ou mesmo nos atos de violência que parecem menores em comparação com o retrato desses tempos. Seus olhos contemplam tudo e narram de uma maneira tão crua e inocente que chega a ser desconcertante. Sabe a ideia da honestidade infantil a toda prova? É o que temos aqui.

O tempo passa e, com o colapso iminente tomando conta de seu país, a menina é enviada aos Estados Unidos para morar com a tia – o chamado "sonho americano", tão antigo e ainda tão atual. Uma vez que ela deixa o seu lar, podemos acompanhar seu crescimento. Sua voz narrativa amadurece aos poucos, bem como sua percepção de mundo. Com isso nos deparamos com alguns sentimentos típicos de imigrantes: pequenas peças que compõem um quebra-cabeças complexo, um cenário muito ambíguo: a diferença entre o sonho e a realidade, a saudade de casa e o sentimento de inadequação e de não pertencer a nenhum dos dois lugares. Ou seja: situações emocionalmente conflitantes somados ainda aos desafios já habituais de adolescência e juventude.

Avaliação:


Confesso que tive algumas dificuldades e precisei de algum tempo para pensar sobre o livro e também a respeito do que escreveria. A voz da infância de Darling é fácil de ler, e visualizar mesmo o que está nas entrelinhas. O problema é quando o seu tom começa a mudar a medida em que o tempo passa após sua chegada aos Estados Unidos. Não sobre sua adolescência, mas sua juventude, quando ela começa a discorrer mais sobre a saudade de casa, as diferenças culturais e o cotidiano de dificuldades de quem é imigrante ilegal, não apenas oriundo de países da África, mas também de outros locais, em especial falando da despersonalização e na invisibilidade ao qual essas pessoas se obrigam a viver para permanecer no que ela chama de prisão, nesse caso, uma prisão escolhida:


“Não voltávamos para nossa terra para visitar porque não tínhamos os documentos para nosso retorno, então fícavamos, sabendo que se fôssemos não poderíamos entrar de novo na América. Ficávamos, como prisioneiros, só que escolhemos ser prisioneiros e adorávamos nossa prisão; não era uma prisão ruim. E como as coisas só pioravam no nosso país, apertávamos ainda mais os nossos grilhões e dizíamos, Não vamos embora da América, não, não vamos embora”

O meu problema está longe de ser a escrita ou qualquer coisa nesse sentido. Meu desconforto foi sentir a voz da personagem soando tão envelhecida a ponto de fazer o leitor pensar em uma passagem brusca de tempo na qual Darling pudesse ter constituído família e até chegado a meia idade. Um tom que muda no capítulo seguinte e ganha mais jovialidade, sendo mais próximo da idade da personagem, destoando do que parecia ser a proposta. 

Não que essa parte do livro tenha sido ruim – longe disso, afinal muitas das reflexões mais interessantes sobre imigração e saudades de casa estavam ali – mas o capítulo parecia fora do lugar e fez a história perder a sensação de continuidade, quase transformando o livro em uma obra sobre pequenos relatos, algo parecido com contos, mas talvez organizado sem muito cuidado. Como se cortasse o clima e a atmosfera anterior. Por vezes o que veio depois disso soou arrastado e tedioso. Sobre esses trechos, cheguei a pensar que talvez os capítulos estivessem fora de ordem na criação do ebook. Para ser sincera, ainda sou capaz de crer nessa hipótese. 

Também tive alguns problemas com o final do livro, sobre o ponto no qual ele é interrompido. Foi algo abrupto e que fazia sentido para a história, embora obviamente isso não o torne menos desconfortável. Talvez outros recursos fossem mais interessantes nesse ponto.

Ok, não é um livro grande: menos de 300 páginas. Ele abarca vários itens sem grande profundidade - ato esse responsável pela maior parte das críticas sobre a obra no Goodreads. Mas pelo menos para mim a sua densidade é revelado de uma forma diferente. Denso na crueza, na honestidade, na inocência e na ingenuidade. É um livro sobre resiliência, saudades e referências. Também é um livro sobre sentimento de não pertencer, seja a América ou em sua própria terra natal e, acima de tudo, sobre recomeços.

Outro ponto importante: as temáticas soam tão próximas que é inevitável fazer a comparação com Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Evitar esse tipo de comparação injusta foi uma das minhas maiores dificuldades. Quem tentar fazer esse tipo de experiência sem dúvida considerará "Precisamos de Novos Nomes" como um livro ao qual falta profundidade, mas na prática temos elementos diferentes em jogo. Ifemelu era uma mulher feita, com experiência acadêmica e que um cenário com mais oportunidades, enquanto Darling teve a vida virada pelo avesso muito cedo, passando pelas experiências de uma maneira muito crua e intensa sem a mesma maturidade. Entende o quanto a comparação é injusta?

De qualquer modo terminei o livro pensando que Ifemelu e Darling poderiam ser boas amigas. Mesmo com muitas diferenças, cada uma com suas vivências, experiências e personalidades, tive a sensação de que elas se completam de alguma maneira.

Darling é uma personagem incrível em todos os sentidos, com seus conflitos e suas reflexões. Seu olhar sobre o mundo – seja o de Paraíso, Budapeste ou sobre a América – é capaz de fazer o leitor rir, sentir-se desconfortável e até mesmo ir as lágrimas. Isso me faz considerar a autora sendo muito habilidosa no uso da narrativa em 1ª pessoa, recurso do qual francamente não gosto. Isso é o suficiente para me fazer ter curiosidade em ler mais livros de NoViolet Bulawayo.

Pensando nos itens anteriores, talvez minha avaliação fosse de três corujas e meia, mas vou arredondar para quatro corujinhas e sem medo de ser feliz.


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