Resenha: Easy, de Tammara Webber

sexta-feira, março 28, 2014

Em tempos nos quais o assédio e a violência contra a mulher passaram a ser mais discutidos, nada como um pouco de ficção para ajudar a retomar assuntos e falar sobre eles de maneira didática. Afinal, se muitas vezes ignoramos aquilo que está nas páginas de jornal, a ficção tem um papel e tanto para reviver polêmicas e moldar consciências. E aqui temos "Easy" para dar um bom exemplo.

Não sei se o livro teve o intuito de conscientizar ou se foi apenas alguma história que precisava ser escrita e contada como tantos new adults por aí,  Seja como for, ela é mais que um new adult comum - gênero que prima por cenas de sexo e agarração a perder de vida. "Easy" serve a um propósito aparentemente maior.



"Easy"
Autora: Tammara Webber
Editora: Verus | 306 páginas
Quando Jacqueline segue o namorado de longa data para a faculdade que ele escolheu, a última coisa que ela espera é levar um fora no segundo ano. Depois de duas semanas em estado de choque, ela acorda para sua nova realidade: ela está solteira, frequentando uma universidade que nunca quis, ignorada por seu antigo círculo de amigos e, pela primeira vez na vida, quase repetindo em uma matéria. Ao sair de uma festa sozinha, Jacqueline é atacada por um colega de seu ex. Salva por um cara lindo e misterioso que parece estar no lugar certo na hora certa, ela só quer esquecer aquela noite — mas Lucas, o cara que a ajudou, agora parece estar em todos os lugares. A atração entre eles é intensa. No entanto, os segredos que Lucas esconde ameaçam separá-los. Mas eles vão ter de descobrir que somente juntos podem lutar contra a dor e a culpa, enfrentar a verdade — e encontrar o poder inesperado do amor.

Então vamos lá: "Easy" é um new adult narrado em primeira pessoa por Jacqueline (ou Jackie, dependendo do seu estado de espírito). Ela está na fossa, na lona de verdade porque o fim do namoro fez com que ela perdesse o chão: além de três anos de um relacionamento que parecia perfeito, ela está em um faculdade que não quer, cursando matérias que nunca desejou (e quase levando bomba em uma delas) e também sem amigos, já que seu antigo círculo social era composto por pessoas que eram amigos dele. Ou seja, estamos falando em uma personagem totalmente dependente daquilo que seu ex oferecia, e isso porque o sujeito costumava dizer que ela era uma "namorada T.I" ou "totalmente independente". (Oi?)

Saindo do erro crasso fundamental de sua vida, ela finalmente resolve dar seu primeiro passo para o fim da fossa. E claro que tem que acontecer uma merda: ao sair de uma festa, é atacada pelo melhor amigo de seu ex. Isso já é o bastante para um trauma válido para toda a vida, mesmo que o pior não aconteça. Ela é salva por Lucas, o heroi tatuado da capa. Como acontece muitas vezes na vida real, Jackie não denuncia o ataque e só quer esquecer o que aconteceu, incluindo as pessoas que estavam em volta. O problema é que Lucas consegue estar em todos os lugares, fazendo com que eles se conheçam melhor e passem a se sentir atraídos um pelo outro. O relacionamento entre eles torna-se inevitável, mas um segredo dele pode abalar o rumo desse namoro. E obviamente não posso falar mais sobre esse segredo ou isso vira spoiler.

"Easy" e a realidade:

A despeito de todas as críticas que tenho a respeito do livro, a história base faz todo o sentido e tem tudo a ver com a realidade.

Jacqueline é uma garota que mudou toda sua vida para seguir o seu namorado e descobriu que essa dependência tinha tudo para dar em merda (e deu). Burrice? Sim, mas quantos casos parecidos você não é capaz de lembrar? Quantas mulheres não são estimuladas a seguir os homens de sua vida e deixar seus planos de lado? As qualidades de abnegação e sacrifício feminino ainda são muito estimadas e estimuladas, mesmo em tempos onde esse tal de "amor romântico que aceita tudo" esteja caindo em desuso.

Ok, quando ela finalmente consegue dar os primeiros passos para fora do casulo de dependência, acontece o ataque. Esse ataque é praticado não por um estranho, mas por um conhecido e em quem ela confiava. - representando a realidade de um grande número de agressões sexuais. E a agressão sofrida por ela não termina naquele estacionamento. Ele estará em pauta durante toda a obra e em diversas situações. É o acontecimento chave da história: ou seja, temos aqui uma trama inteiramente baseada em violência contra a mulher e cultura do estupro.

Para quem não sabe, "cultura do estupro" é um termo que designa argumentos e meios pelos quais a sociedade incentiva ou legitima violência sexual contra mulheres: o mito de que a culpa do estupro é da vítima, slut-shamming, achar que o ato comporta um meio termo que o legitime, piadas de estupro e vários outros itens. A discussão do livro é centrada nesses pontos e os discute utilizando argumentos que podem partir tanto dos personagens masculinos quanto femininos - nesse último caso, representando a faceta mais cruel do abuso.

A cultura do estupro é real, mas ainda tremendamente ignorada, rechaçada como se fosse uma invenção de feminazis tirânicas que querem destruir ozomi tudo e instaurar a ditadura (oi?). "Easy" usa a ficção para debatê-la em uma linguagem jovem e é muito útil para conscientizar seus leitores de que isso existe e é uma realidade muito mais próxima do que se pode imaginar. Ajuda a reconhecer essa cultura e também a encontrar uma saída. Em tempos onde a literatura dirigida a mulher vem trazendo relacionamentos abusivos disfarçados na embalagem de contos de fadas, estamos falando de uma opção e tanto.

Avaliação sobre o livro:

Saindo um pouco da temática de cultura do estupro e os paralelos do livro com a realidade, vamos falar de outros pontos importantes. "Easy" tem muitos pontos semelhantes a fanfics, de modo que eu não me surpreenderia se Tammara Webber tivesse um passado como autora de fanfictions (sim, eu sou uma ficwriter e posso falar).

Alguns recursos utilizados na trama são bem parecidos com o que se encontra usualmente em histórias do gênero. Não necessariamente isso é negativo, mas soou amador. Lendo o livro, tive a sensação de que Webber não tinha prática ou não conseguiu lidar com seus personagens de uma forma na qual a proximidade entre eles pudesse ocorrer de uma forma mais natural. Em alguns momentos parece que ela está forçando a barra para que Lucas marque sua presença como herói-protagonista já que os encontros e diálogos soam artificiais.

A escolha do segredo que atormenta o protagonista faz sentido, mas ver isso abordado na voz de Jacqueline também dá a sensação de que a autora quer criar uma atmosfera de dramaticidade exagerada - sendo que esse segredo não tem nada de exagero.

A escrita também é algo que merece atenção. Ela é fluida, e dificilmente você terá problemas em entender a linha dos pensamentos de Jackie, mas podemos encontrar trechos que precisam de três ou quatro releituras para fazer algum sentido. O mesmo acontece em alguns diálogos, em especial os mais ásperos. Nada que cause vergonha alheia, mas é bastante incômodo vez ou outra.

Apesar dos pesares, o saldo é positivo e a história flui independente dos problemas. É uma leitura que cumpre o que promete, seja fornecendo uma boa distração ou ainda passando uma mensagem a respeito de violência sexual, já que todo esclarecimento é bem vindo.

E é pelo conjunto da obra que “Easy” leva três corujinhas.

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2 comentários

  1. Curiosamente estou com esse livro no Kindle há uns dois anos e sempre deixo a leitura de lado. Peguei pra ser um escape, aquele livro água com açúcar pra gente ler e depois esquecer. Interessante ter essa questão de violência contra a mulher e cultura do estupro sendo debatidos, em geral o tema não aparece na literatura e se aparece a culpa é sempre da personagem feminina.

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    1. Miga, pode investir. O tema é o centro do livro e da forma correta de abordar. Eu recomendaria "Easy" para toda adolescente porque entender o mecanismo da cultura do estupro é necessária para qualquer uma de nós, e "Easy" fala bem a língua dos jovens mesmo.

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