Resenha: Dias Perfeitos, de Raphael Montes

terça-feira, abril 22, 2014

Antes de começar esse post, acho interessante comentar o fato de que não sou particularmente atraída pelo gênero policial. Nunca gostei de Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle nem tenho paciência para um monte de voltas no enredo, como é típico desse tipo de história, mas "Dias Perfeitos" me ganhou logo na sinopse. Confira:


Dias PerfeitosAutor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras | 280 páginas
Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez.

Tomei conhecimento desse livro pelo Cabine Literária, site no qual tenho atuado como colaboradora, quando assisti um dos vídeos que falavam sobre lançamentos para o mês. E desde então fiquei interessadíssima nessa sinopse... romântica. #sqn . Então li o e-book e assim que pude fiz questão de comprar o livro físico.

Na verdade não é a primeira obra que leio que tem uma premissa parecida. Já li "O Colecionador", de John Fowles, e é o melhor livro que tenho para estabelecer algum tipo de comparação. E posso dizer que "Dias Perfeitos" é bem melhor e que, acima de tudo, superou minhas expectativas. Ainda mais pelo fato de que nunca vi a obra de Clarice Lispector ser usada de maneira tão... peculiar e só por isso já valeria a leitura.

Narrado em terceira pessoa que parece primeira a ponto até de confundir uma coisa com a outra (batizei esse tipo de narrativa de "quarta pessoa"), a escrita de Raphael Montes faz com que seja possível entrar na mente de Téo e entender as motivações distorcidas para cada um de seus atos. Todos os atos do personagem acabam dotados de sentido, mesmo que seja terrivelmente errado e vá contra qualquer tipo de princípio. Tudo isso sem cansar o leitor, algo que vem se tornando bastante complicado nos últimos anos nos quais as histórias dão voltas e mais voltas.

Aliás, é possível até mesmo sentir empatia pelo Téo (acredite se quiser). E isso é absolutamente perturbador!

Ok, em alguns momentos a coisa fica meio entediante, mas isso acontece nos momentos de calmaria das situações e dos personagens, portanto sendo algo perdoável. Afinal se tudo se mantivesse no pico, devo dizer que a tensão provocada poderia ser quase insuportável. Seria como assistir a saudosa "Avenida Brasil" composta inteiramente por cenas de gritos e falatórios, além das cenas nas quais seria muito fácil se perder num piscar de olhos. Não é a toa que existe o horário do comercial (não apenas para ganhar dinheiro, crianças). O outro problema do livro é o final: pelo menos pra mim, foi absolutamente broxante, mas ok. Acontece.

De qualquer maneira, o conjunto da obra fez com que "Dias Perfeitos", sem a menor sombra de dúvidas, fosse uma das minhas melhores leituras do ano até o momento e que Raphael Montes entre para minha listinha de autores nos quais devo ficar de olho.

Tendo em vista esses fatores, três corujinhas na classificação.

Lady Sybylla

Manu Najjar

Jornalista, blogueira, noveleira com orgulho, e ficwriter nas horas vagas. Admiradora da ampla cultura útil e inútil presente na vida.




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1 comentários

  1. Manuu gostei bastante da resenha.

    Você tem que ler o "Suicidas" é fantástico também..

    O Raphael entrou na lista dos meus autores preferidos ..

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