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A Garota da Biblioteca

Peguei esse livro sem saber direito sobre o que se tratava. A sinopse me parecia promissora, mas nem sabia que tinha virado filme ou que tinha todo o rebuliço em cima por causa disso. Levei apenas um dia para terminar a leitura e admito que fiz mil suposições sobre o misterioso crime que aparece na trama.

Capa de A Garota no Trem

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Sinopse:
Um thriller psicológico que vai mudar para sempre a maneira como você observa a vida das pessoas ao seu redor.
Todas as manhãs, Rachel pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. O arrastar trepidante pelos trilhos faz parte de sua rotina. O percurso, que ela conhece de cor, é um hipnotizante passeio de galpões, caixas dágua, pontes e aconchegantes casas.
Em determinado trecho, o trem para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel observa diariamente a casa de número 15. Obcecada com seus belos habitantes a quem chama de Jess e Jason , Rachel é capaz de descrever o que imagina ser a vida perfeita do jovem casal. Até testemunhar uma cena chocante, segundos antes de o trem dar um solavanco e seguir viagem. Poucos dias depois, ela descobre que Jess na verdade Megan está desaparecida.
Sem conseguir se manter alheia à situação, ela vai à polícia e conta o que viu. E acaba não só participando diretamente do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos. Uma narrativa extremamente inteligente e repleta de reviravoltas, A garota No Trem é um thriller digno de Hitchcock a ser compulsivamente devorado.

O livro

Rachel Watson é alcoólatra e vê seus dias passarem de acordo com o vai e vem do trem, indo e voltando para o trabalho. Sua vida anda vazia e sem sentido desde o divórcio com Tom, tudo parece desmoronar, enquanto ela fantasia ao ver as pessoas em suas casas da janela do trem. Ela até tem um casal preferido, deu nomes a eles e inveja sua felicidade.

Sem medir as consequências de seus atos, Rachel bebe e bebe muito. As pessoas percebem, até seu marido, que não hesita em pedir o divórcio e ir morar com a amante, com quem tiveram uma filha. Isso por si só já joga Rachel em uma espiral de bebedeiras e viagens de trem constantes, além de sempre decepcionar a amiga com quem divide apartamento.

Tem momentos do livro em que você quer estapear Rachel para que ela acorde para a vida. Em outros, ficamos com pena e queremos abraçá-la e dizer que vai ficar tudo bem. Ela faz muita burrada, muita, depois não se lembra devido à amnésia alcoólica. Sua vida parece ganhar algum sentido quando ela percebe que a mulher que ela tanto invejava pela janela do trem está desaparecida e, tentando ajudar, ela vai à polícia.

O problema é que uma alcoólatra com histórico de desordem e problemas emocionais, acusada de invadir a casa do ex-marido não é uma testemunha muito confiável. E é assim que Rachel se envolve cada vez mais com o caso, ao perceber que ninguém lhe dará ouvidos.


Avaliação

O livro prende e prende bastante. É impossível não se identificar com algumas sensações, emoções e tristezas da protagonista Rachel, que mostra uma força inesperada perto do final do livro. Acho que o principal ensinamento aqui é que ninguém é o que parece ser e isso quase custa a vida dela. Personagens detestáveis e irritantes, situações perigosas e intrincadas que vão se revelando aos poucos conforme deciframos a mente de Rachel, que já vimos, pode não ser muito confiável.

A autora nos leva por esses caminhos tortuosos nos revelando os verdadeiros fatos sobre o desaparecimento de Megan e dividindo a narrativa entre três mulheres: Rachel, Megan (a mulher que ela via pela janela do trem) e Anna, a amante de seu ex-marido que acabou se casando com ele. A forma com que Paula nos leva pela vida de Rachel é primorosa e até um pouco triste, pois a forma como os outros a veem dá pena. E a maneira como Rachel se tortura, pensando em seu ex-marido e em sua vida perfeita e feliz acaba atingindo o leitor também.

Quem está precisando de um bom thriller psicológico e não pretende dormir tão cedo, pode pegar A Garota no Trem tranquilamente. Ele perde um pouco de ritmo e fica meio devagar em alguns momentos, mas não é algo que chega a atrapalhar a narrativa em si. Quatro corujinhas e uma recomendação para você ler também. ♥

Título original: The Girl on the Train
Editora: Intrínseca
Páginas: 378
Ano de lançamento: 2015

Eu sou uma grande fã de romances históricos. Geralmente eu falo só de ficção científica, né? Mas romances históricos me cativam e Os Príncipes da Irlanda é um daqueles épicos romances, que atravessa gerações. O mais legal do livro é que a personagem principal é a cidade de Dublin.

Os Príncipes da Irlanda


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Sinopse:
O autor examina o conturbado passado da Irlanda, desde os primórdios de sua fundação, passando pela invasão viking, até a Reforma. Rutherfurd cobre os 11 séculos iniciais do país, com personagens fictícios que, perfeitamente ajustados aos relatos reais estudados em profusão pelo autor, trazem ao leitor brasileiro o universo histórico daquelas terras tão enigmáticas. A obra compõe o primeiro volume da saga Dublin e tem como ponto de vista as pessoas daquela cidade.

O livro

A saga de Dublin começa antes da chegada de São Patrício, que catequizou a Irlanda, antes da chegada das tribos celtas. A região onde hoje fica Dublin era um delta lamacento que desaguava no mar da Irlanda. A região era conhecida com Dubh Linn. Temos um casal, o príncipe Conall e a camponesa Deirdre, que viviam na época dos reis de Tara e que, provavelmente, deram origem à lenda celta do deus Cuchulainn.

O autor coloca personagens fictícios em situações que aconteceram ou que podem ter acontecido. Através dos olhos de diversos personagens, interligados em uma delicada genealogia, vemos as mudanças acontecendo no delta de Dubh Linn. O começo pode ser bastante violento, pois as tribos praticavam sacrifícios humanos nos festivais pagãos; em seguida tem a invasão viking, que inaugurou um novo período na região de Dubh Linn, antes da chegada de São Patrício.

História e mitologia estão intrinsecamente ligados às trajetórias de sete famílias, ao longo de vários séculos, os Ui Fergusa e O’Byrne; os Smith; os MacGowan; os Harold; os Doyle; os Walsh e os Tidy. Cada novo capítulo histórico da Irlanda inaugura também um narrativa de cada família. O autor foi especialmente detalhista no capítulo sobre Brian Boru, o Grande Rei de Toda a Irlanda (Árd Righ Gaidel Éirinn), sendo que após sua morte em uma batalha contra os Vikings, a ilha nunca mais esteve sob o domínio de um único monarca. Aliás, toda a parte sobre a invasão viking mostra a tensão de viver sob o julgo de estrangeiros, os movimentos de resistência e os oportunistas, que conseguiram lucrar com a situação.

O livro chega até o século XVI da história irlandesa, com Silken Thomas, importante figura histórica que fez o rei inglês prestar mais atenção às questões irlandesas, que acabou levando à criação do Reino da Irlanda, em 1542.

Avaliação

Esta não é só uma obra de romance histórico. É uma aula de história em si, pois a invasão viking, a chegada de São Patrício, a unificação da Irlanda por Brian Boru, os conflitos com os ingleses, todos os fatos históricos realmente aconteceram. Nós os vemos através de personagens fictícios, mas os eventos são reais, e as consequências do capítulo anterior conduzem ao capítulo seguinte. Transformar a Irlanda e, em especial, a cidade de Dublin em uma personagem, foi uma ideia genial.

O livro também tem mapas, que mostram a ilha em si, o assentamento original de Dubh Linn e a Dublin medieval. Eu como boa geógrafa que sou, apoio mapas em livros e este, que tem a cidade como protagonista, não podia deixar de ter. A narrativa perde um pouco de ritmo do meio para o final, em algumas páginas ele se arrasta mesmo, mas vale à pena continuar.

Título original: Dublin Foundation
Coleção: A Saga de Dublin Livro I
Editora: Record
Páginas: 700
Ano de lançamento: 1ª edição 2006

Este é o primeiro livro da saga; o próximo é O Despertar da Irlanda, que continua a saga a partir do século XVI. Se você é fã de romances históricos como eu, vai curtir muito este livro. Quatro corujas para Dubh Linn e sua conturbada história e uma recomendação para você ler também.


Até mais!
Eu vi o filme Histórias Cruzadas por causa de Viola Davis. Achei um filme bom, me fez chorar, adoro a Viola. Aí eu peguei o livro A Resposta para ler. Queria dar um tempo na ficção científica e aquele livro vinha me olhando do livreiro fazia tempo. Como eu já conhecia a história do filme, o livro me intimidava. Taí a palavra certa. Não sei bem o que vai ser dessa resenha...

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Sinopse:
Uma história de otimismo ambientada no Mississippi em 1962, durante a gestação do movimento dos direitos civis nos EUA.

Eugenia Skeeter Phelan acabou de se graduar na faculdade e está ansiosa para tornar-se escritora, mas encontra a resistência da mãe, que quer vê-la casada. Porém, o único emprego que consegue é como colunista de dicas domésticas do jornal local. É assim que ela se aproxima de Aibellen, a empregada de uma de suas amigas. Em contanto com ela, Skeeter começa a se lembrar da negra que a criou e, aconselhada a escrever sobre o que a incomoda, tem uma ideia perigosa: escrever um livro em que empregadas domésticas negras relatam o seu relacionamento com patroas brancas.

Mesmo com receio de prováveis retaliações, ela consegue a ajuda de Aibileen, empregada que já ajudou a criar 17 crianças brancas, mas chora a perda do próprio filho, e Minny, cozinheira de mão cheia que, por não levar desaforo para casa, já esteve por diversas vezes desempregada após bater boca com suas patroas. Uma história emocionante e estarrecedora onde a cor da pele das pessoas determina toda a sua vida. Um livro que, devido ao seu tema, chegou a ser recusado por quase sessenta editoras antes de ser publicado.

(Skoob)

O livro

O livro é narrado pelo ponto de vista de três personagens: Minny, uma empregada negra que é conhecida por ser uma excelente cozinheira, sempre falar demais e que perdeu o emprego diversas vezes por causa disso; Aibileen também negra, que já cuidou de dezessete crianças brancas e Skeeter, branca, que acabou de voltar da faculdade e que quer ser escritora. Todas elas vivem em Jackson, Mississippi, nos anos 60, uma época de profunda segregação racial.

As três parecem parceiras improváveis, especialmente porque Skeeter é branca, convive com as mulheres da sociedade de Jackson, enquanto as empregadas negras são relegadas a situações humilhantes e degradantes, sem salário mínimo e sem direito ao serviço social. Têm jornadas penosas, não podem usar o banheiro das casas onde trabalham, são vistas com desconfiança por patrões racistas. Precisam usar um banheiro pequeno e abafado na garagem porque são vistas como "sujas e transmissoras de doenças" (!).

Skeeter sonha em ser escritora, mas tudo o que consegue é um emprego no jornal local, escrevendo a coluna de limpeza e cuidados domésticos. Como não entende disso, acaba pedindo a ajuda de Aibileen, que lhe passa todas as dicas e soluções caseiras para uma série de problemas, como manchas na roupa, nos móveis. Aí, depois de receber um conselho de uma editora de Nova York, ela tem a grande ideia que norteia todo o livro: escrever um livro sob a perspectiva das empregadas e de como elas viam a sociedade de Jackson.

O que me faz lembrar de uma coisa em que não quero pensar: que a dona Leefolt tá construindo um banheiro pra mim porque acha que eu tenho doenças. E a dona Skeeter me pergunta se eu não quero mudar as coisas, como se mudar Jackson, Mississippi, fosse o mesmo que trocar uma lâmpada.

(Aibileen)

Skeeter, por sua vez, não esperava se confrontar com tantos privilégios que ela mesma nunca enxergou e do racismo que comete, mesmo que sem querer ou perceber, como quando ela sugere que a Aibileen vá até a biblioteca pública para retirar livros e Aibileen a lembra que negros não podem entrar lá. O projeto começa como um mero livro com várias biografias, mas ela não entende, em princípio, porque Aibileen não pode ser vista conversando com ela, nem recebendo-a em casa. Aquela era uma época em que um negro poderia ser morto ou espancado na rua apenas por estar ali. Ela não entende a raiva de Minny, que é sempre curta e grossa em suas observações. Na primeira vez que Aibileen conversa com Skeeter, ela passa mal e vomita. Cena que não está no filme.

Praticamente todas as personagens brancas são racistas, incluindo Skeeter. Skeeter começa a perceber seus próprios erros e tenta se policiar, aprendendo com Minny, com Aibileen e com as outras empregadas que se dispõem a ajudar. Mas nem tudo são flores. Uma das empregadas diz para Skeeter que ela é odiada e que seu projeto é só um engodo. Skeeter teme por todas as mulheres que estão contribuindo para o projeto, pois ela sabe que sua cor não é problema. O máximo que acontece com ela é ser excluída da sociedade de Jackson. Já para as negras, a morte, o espancamento, o despejo, a demissão, são presenças frequentes.

Histórias furiosas brotam, de homens brancos que tentaram tocá-las. Winnie conta que foi forçada inúmeras vezes. Cleontine disse que se debateu até tirar sangue do rosto do agressor, e que ele nunca mais tentou. Mas a dicotomia de amor e desprezo vivendo lado a lado é o que me surpreende. A maioria é convidada para o casamento das crianças brancas, mas só se for de uniforme. Essas coisas eu já sei; no entanto, ouvi-las da boca da pessoa de cor é como ouvi-las pela primeira vez.

(Skeeter)

Cena do filme Histórias Cruzadas. Minny, Aibileen e Skeeter.

Avaliação

Viola Davis foi muito criticada por ter protagonizado a empregada Aibileen. Uma atriz de sua importância e de seu talento, interpretando uma empregada em uma época de intensa segregação parecia ser algo indigno dela, que ela estava perpetuando um estereótipo clichê demais. Em uma entrevista, Viola conta que sua avó foi empregada em fazendas de algodão no sul, que sua mãe foi empregada por muitos anos e que conversou muito com sua mãe para poder dar vida a Aibileen.

Você só está reduzido a um clichê se você não humanizar um personagem. (...) Eu a vi em uma jornada. Eu a vi tendo humor, coragem e inteligência. Eu a vi numa dualidade. E é isso o que eu procurei acima de tudo. Porque, geralmente, é isso o que está faltando.

Viola Davis

A autora Kathryn Stockett também recebeu várias críticas, de tentar fazer o livro ser sobre segregação racial, sobre personagens negras e de ser mais uma branca tentando escrever sobre personagens negros e tornando-se um best-seller. Há vários pontos válidos aqui. Quando um negro escreve um livro sobre o assunto, ele dificilmente vira best-seller, mas uma branca vira. De repente, todos a ouvem. Mas o livro não é sobre a segregação racial nos anos 60. São três mulheres que decidiram escrever um livro. Vamos de uma narrativa para a outra, vendo o ponto de vista de cada uma. E temos muitos assuntos sendo tratados:

  • violência doméstica
  • supremacia branca
  • violência de gênero
  • racismo
  • falta de empregos para mulheres

A autora coloca no final:

(...) não pretendo pensar que sei como era ser uma mulher negra no Mississippi, sobretudo nos anos 1960. Acho que é algo que uma mulher branca que paga o salário de uma mulher negra jamais poderá entender completamente. Mas tentar entender é vital para a nossa humanidade.

O livro é isso: uma tentativa de uma mulher branca de contar uma história. E ela conseguiu, o livro é bom. Mas também é sobre uma mulher branca enfrentando seus privilégios por ser branca em uma sociedade profundamente racista. O filme deixou de fora muitos aspectos profundos de Aibileen e de Minny e de todas as outras empregadas do livro e sei que a autora apenas arranhou as questões de segregação, porque não era esse o assunto do livro. Assim como Toda a Luz Que Não Podemos Ver não é um livro sobre a Segunda Guerra Mundial.


No mais, sei que ter gostado do livro e ter me emocionado com ele também envolve meus privilégios enquanto branca. Privilégios esses que, assim como Skeeter, eu preciso ver, porque privilégios são transparentes. E preciso desconstruir o meu racismo todos os dias. Nós crescemos nessa sociedade que não é tão diferente daquela que vemos em Jackson, Mississippi. Se Skeeter aprendeu algo com os depoimentos que recebeu, a gente também pode aprender. Quatro corujas para o livro.

Título original: The Help
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 573
Ano de lançamento: 2012

Este livro foi bem difícil de ler. Tinha assistido ao filme primeiro, chorado horrores e fiquei com bastante medo de pegar o livro. Duas pessoas muito queridas morreram em decorrência do Alzheimer e uma delas teve o mesmo problema de Alice, o Alzheimer de instalação precoce. Ler o livro foi bem diferente de ver o filme, pois aqui nós temos a narração de Alice, estamos em sua cabeça, acompanhando sua vida e convivência com a doença.


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Sinopse:
Alice (no filme, interpretada por Julianne Moore) sempre foi uma mulher de certezas. Professora e pesquisadora bem-sucedida, não havia referência bibliográfica que não guardasse de cor. Alice sempre acreditou que poderia estar no controle, mas nada é para sempre. Perto dos cinqüenta anos, Alice Howland começa a esquecer. No início, coisas sem importância, até que ela se perde na volta para casa. Estresse, provavelmente, talvez a menopausa; nada que um médico não dê jeito. Mas não é o que acontece. Ironicamente, a professora com a memória mais afiada de Harvard é diagnosticada com um caso precoce de mal de Alzheimer, uma doença degenerativa incurável.

Poucas certezas aguardam Alice. Ela terá que se reinventar a cada dia, abrir mão do controle, aprender a se deixar cuidar e conviver com uma única certeza: a de que não será mais a mesma. Enquanto tenta aprender a lidar com as dificuldades, Alice começa a enxergar a si própria, o marido (Alec Baldwin), os filhos (Kate Botsworth, Hunter Parrish e a queridinha de Hollywood, Kirsten Stewart) e o mundo de forma diferente. Um sorriso, a voz, o toque, a calma que a presença de alguém transmite podem devolver uma lembrança – mesmo que por instantes, e ainda que não saiba quem é.


O livro

Alice é uma bem sucedida professora de Harvard. Casada com um também professor, três filhos, sendo que a mais nova é tida como rebelde apenas porque não quer frequentar a faculdade. É uma mulher independente, pesquisadora, que apesar dos percalços da vida, está sempre trabalhando, viajando para encontrar a filha, sendo o suporte para a carreira do marido. Eles moram numa casa muito boa, perto do campus, a vida parece seguir muito bem.

Alice começa a ter esquecimentos estranhos. As palavras fogem. Mas a preocupação realmente a aflige quando sai um dia para correr e se perde. Ela sabia que estava num lugar que conhecia, mas que simplesmente lhe escapava. Alice não conseguia achar o caminho para sair da praça e voltar para casa.

Preocupada, ela procura sua médica usual. Ao procurar na internet por seus sintomas, ela julgou que pudesse ser menopausa. Depois procura um neurologista, que pede todos os exames possíveis. E ele lhe dá um diagnóstico aterrador: ela tem Alzheimer de instalação precoce. O Alzheimer é considerado precoce quando é diagnosticado antes do 65 anos e neste caso ele é sempre hereditário. O médico lhe passa uma série de papéis e regras e faz testes de memória, mas Alice sente como se não conseguisse acreditar que tem Alzheimer.

Ela pensa na filha mais velha, Anna, que está tentando ter filhos e como a doença é hereditária, ela pode acabar não só desenvolvendo, como também passando para as crianças. E agora? Como contar para a família? Sua filha mais nova, a rebelde, já tinha percebido que algo estava errado, mas o marido e os outros filhos, que a viam o tempo todo não.

Acompanhamos a rotina de Alice, as tentativas de dar aulas, que vão piorando cada vez mais. Seus alunos começam a perceber algo errado, especialmente num dia em que ela entra, senta-se, esperando um professor - que era ela mesma! - se levanta e sai. Ela esquece de pegar um voo, vive grudada no celular para não esquecer da vida e enfrenta as dificuldades do marido em aceitar sua doença.

Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo. Esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje. Mas isso não significa que o hoje não tem importância.


Avaliação

De todos os personagens do livro, o que mais me incomodou foi o marido, pois esta é uma reação que acredito que seja geral para muitos sujeitos que sempre tiveram o apoio da família e da esposa para subir na carreira, enquanto ela ficava em casa, de licença, cuidando dos filhos e tendo que parar seus estudos, experimentos e carreira. O marido de Alice trabalha com genética e quer colocá-la em todos os estudos e testes possíveis, como se ela estivesse com um defeito e não com uma doença.

Alice perde as coisas e depois desmonta a casa inteira atrás delas. O marido chega um dia e encontra toda a louça para fora dos armários. Ela procura algo maniacamente e não acha. Na verdade ela estava atrás do celular, que enfiou no freezer. Outro dia, ela entra na casa errada e a vizinha a encontra.

Mas mesmo com todas as provações, Alice consegue criar um grupo de ajuda para pacientes com a mesma doença e estágios iniciais de demência. É muito bonito vê-la tirar forças e ensinamentos sobre a doença para passar para os outros. Mas ao mesmo tempo é triste vê-la tentar se lembrar do nome dos filhos, ou de onde guardou o celular.

Quando eu era criança, uma vizinha cuidava de mim antes de eu ir pra escola, já que minha mãe saía cedo para trabalhar e eu estudava à tarde. Depois que nos mudamos, acabamos perdendo contato, mas um dia minha mãe encontrou o marido dela na rua. E ele disse que ela estava com Alzheimer. Quando a visitamos, pareceu que ela teve um lampejo de consciência ao ver minha mãe, mas já estava na cama, sem conseguir falar, andar, nem comer sozinha.

Ela morreu poucas semanas depois. O marido contou que percebeu algo estranho em um dia em que estava no trabalho e ligaram perguntando por ela. Não sabiam onde ela estava e não tinha chegado ao trabalho, uma escola municipal. Ela se perdeu no caminho para a escola. Não conseguia pegar o ônibus e foi uma vizinha que a viu andando na rodovia.

Foi por isso que esse livro me tocou tão fundo. Cerca de 35,6 milhões de pessoas ao redor do mundo que sofrem da doença de Alzheimer. Mas eu pensei nela, imediatamente. Na senhora cheia de energia que cuidava de mim, na comida saborosa que fazia e nas tardes jogando Atari com o filho dela. Vê-la da forma como vi foi muito difícil.

Título original: Still Alice
Ano: 2009
Páginas: 284
Editora: Nova Fronteira

Recomendo a leitura fortemente para todo mundo. Doença de Alzheimer não acomete somente os idosos, pessoas com cinquenta anos também podem apresentar os sintomas e desenvolvê-la muito cedo. É também uma leitura muito leve apesar do tema. Alice consegue rir da própria situação em vários momentos. Um tema sensível, um livro bem escrito, por isso, cinco corujas.

A Menina da Neve é um livro muito sensível. Não só no tema, como no modo como os personagens interagem entre si. Além disso, o livro se passa no Alasca, nos anos 20. Um território hostil, selvagem. Quem ia para lá era praticamente um pioneiro. A gente lê e pensa: foi real ou foi tudo um sonho coletivo?

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Sinopse:
Alasca, 1920: Um lugar especialmente difícil para os recém-chegados Jack e Mabel. Sem filhos, eles estão se afastando um do outro cada vez mais ele, no duro trabalho da fazenda, ela, se perdendo na solidão e no desespero. Em um dos raros momentos juntos durante a primeira nevasca da temporada, eles fazem uma criança de neve. Na manhã seguinte, ela simplesmente desaparece.

Jack e Mabel avistam uma menina loira correndo por entre as árvores, mas a criança não é comum. Ela caça com uma raposa-vermelha ao lado e, de alguma forma, consegue sobreviver sozinha no rigoroso inverno do Alasca.


O livro

Depois de uma tragédia familiar, onde perderam seu bebê tão sonhado e tão amado, Mabel e Jack se mudam para as terras selvagens do Alasca. Queriam ficar longe de tudo, das cobranças familiares, dos dedos acusadores, de crianças correndo pela casa. Longe de qualquer coisa conhecida para começarem de novo. Mabel se sente culpada pela morte do bebê, está cada vez mais distante do marido e não podia mais suportar os mexericos da parentada que diziam que Jack devia se casar com outra, especulando qual seria o problema dela por não ter filhos.

Ela não se lembrava da última vez que ele tocara sua pele, e aquele pensamento doía como solidão em seu peito. Então ela viu alguns fios prateados em sua barba avermelhada. Quando eles apareceram? Ele também estava ficando grisalho? Os dois desaparecendo sem que nenhum notasse o outro.

O casal já não é mais jovem como antes. As rugas, as linhas de expressão, os cabelos brancos começam a surgir. Mabel sente que poderia desaparecer e ninguém notaria. Tanto que chega a patinar sobre o gelo que cobre o rio, querendo que eles se partisse para ela fosse com a água. Jack parece não perceber sua irritação, seus pesadelos. Apenas preocupa-se em preparar a terra para o plantio quando o inverno acabar, pensa em como alimentar a ele e à Mabel com nenhum dinheiro e sem mais nenhum crédito na vila.

Mabel mente para si mesma. Ela pensa que aquela é a vida que sempre quis. Jack mal consegue conviver com ela, por não concordar com o tipo de vida que levam. Mas ninguém faz nada para mudar a situação.

Uma noite, uma nevasca intensa faz com que Mabel e Jack comecem uma guerra de neve do lado de fora da cabana. Os dois rolam e brincam na neve fofa que cai e decidem fazer uma boneca. Molhados e com frio, eles começam a moldar o corpo da menininha. Com o sumo fresco de frutinhas, Mabel faz os lábios dela, enquanto Jack esculpe o rosto. Dentro da cabana, ela cata um par de luvas, um cachecol, os dois vermelhos e coloca na bonequinha de neve que toma forma.

Mas no dia seguinte, ao olhar pela janela, a bonequinha sumiu. E havia pegadas saindo do montinho de neve, rumo à floresta. O que aconteceu? O casal fica atônito, porque logo em seguida começam a ver uma menininha correndo pela floresta. Estranhas oferendas surgem na porta da cabana, como uma lebre morta.

Achei que tinha visto algo - disse Jack. - Mas eram apenas meus olhos cansados me enganando.

A menina começa a se aproximar cada vez mais. Ela parece selvagem, com galhos e folhas no cabelo embaraçado, mas parece se virar muito bem na floresta. Bem demais, melhor do que o casal, que sofre com as intempéries do Alasca. A vida dos dois muda drasticamente, pois agora ele pegam amor pela menina. Infelizmente, ninguém acredita em Mabel, como o casal vizinho que tanto os ajuda. E Jack não tem coragem de dizer que vê a menininha.


Avaliação


Título original: The Snow Child
Autora: Eowyn Ivey
Editoria: Novo Conceito
Páginas: 352

O livro é muito sensível, muito tocante na forma como trabalha solidão, casamento, relações humanas e o sobrenatural. Temos uma visão muito boa dos acontecimentos na vida e na mente dos personagens. É possível sentir muito bem toda a angústia, a tristeza, a raiva, a alegria. Existem momentos bem difíceis de ler, como a limpeza de carcaça de animais e cenas de caça, pois são passagens bem vívidas.

Não sei dizer o que pensar do final, pois tive a impressão que a autora quis que cada um pudesse pensar o que quisesse sobre a menininha, que se chama Faina. Ela era uma menina da floresta? Era um sonho? Uma fada da neve? Ela realmente existiu ou aquilo tudo foi um sonho? Chega um determinado momento que a origem da menina nem faz tanta importância, pois queremos saber se Mabel e Jack serão, finalmente felizes.

Fiquei digerindo a leitura por um tempo. Ainda não consegui chegar à uma conclusão sobre a menina. Talvez essa seja mesmo a intenção. Mas a vida das pessoas que orbitam Faina é tão interessante, que faz a gente ler o livro até o final. Quatro corujas.

Sou muito fã da trilogia Millenium e lamentei muito a morte de Stieg Larsson porque isso também significava o fim da revista Millenium e de Lisbeth Salander. Mas aí eis que surge a novidade: um novo volume estava chegando pela mão de outro autor. David Lagercrantz foi escolhido pelo pai e pelo irmão de Stieg Larsson, herdeiros do escritor. Mas ouso dizer que foi uma péssima escolha.


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Sinopse:
Uma muralha virtual impenetrável: é assim que se pode definir a rede da NSA, a temida agência de segurança americana. Quando a mensagem “Você foi invadido” piscou na tela de Ed Needham, responsável pelos computadores que guardam alguns dos maiores segredos do mundo, ele custou a acreditar. A tentativa de localizar o criminoso também não trazia frutos, as pistas não levavam a lugar nenhum, cada indício terminava num beco sem saída. Que hacker seria capaz de algo assim?


O livro

Mikael Blomkvist está irritado com a situação financeira da revista Millenium. A revista corre um risco de mudar de estilo, pode mandar gente embora e um invejoso da fama de Mikael está no comando da mudança. Ele não quer isso. Mas surge uma oportunidade de um furo, algo a respeito de um cientista brilhante da Suécia que vive isolado e enclausurado, com medo de alguma coisa.

Este mesmo cientista da área da computação, Frans Balder, bate à porta da casa da ex-esposa e leva consigo o filho autista, um savant, considerado um distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência. O menino tem uma habilidade ímpar para o desenho e para a matemática avançada, o que surpreende o pai. O garoto terá pela frente um desafio imenso, inclusive trabalhando junto de Lisbeth.

Enquanto isso, um hacker consegue invadir a famosa NSA, Agência de Segurança Nacional, dos Estados Unidos, algo que julgavam ser impossível. As repercussões da invasão chegam até a Säpo, o serviço de segurança nacional da Suécia que, entre outras coisas, está preocupado com a segurança do professor Balder, que parece não dar muita importância ao aviso de que sua vida corre risco.

Lisbeth, enquanto isso, está sumida. Mas Mikael, ao conversar com uma fonte, que lhe conta a respeito do professor Balder e do que aconteceu a ele, percebe que ela pode estar envolvida no caso. A descrição bate com a figura de Lisbeth, de quem Mikael não tem notícias há um bom tempo. Teria ela sido tão imprudente a ponto de invadir a NSA e de lá baixar um arquivo? Ela teria condições de fazer isso, um feito que tantos julgam impossível?

Mesmo assim, Mikael estava ligado a Lisbeth, e, acima de tudo, não havia como escapar da preocupação que tinha com ela. O ex-tutor de Lisbeth, Holger Palmgren, costumava dizer que ela sabia cuidar de si mesma. Apesar da infância terrível que tivera, ou talvez justamente por causa de tudo que havia lhe acontecido, Lisbeth tinha se transformado em uma sobrevivente. Impossível negar o quanto de verdade havia nisso. Praticamente não existiam garantias para uma garota com um passado como o dela e com uma habilidade ímpar de fazer inimigos.


Avaliação

Antes de tudo devo dizer que admiro a tentativa de David Lagercrantz em dar continuidade à obra de Larsson. Não é uma tarefa simples, nem fácil. Stieg Larsson morreu deu m infarto fulminante antes de ver o sucesso de sua obra, que vendeu mais de 80 milhões de exemplares. Os personagens são cativantes, o enredo é intrincado, surpreendente, tudo nas obras de Larsson é absolutamente fascinante. Assim, qualquer pessoa que se dispusesse a escrever uma continuação teria uma tarefa árdua pela frente.


A ideia geral do enredo é muito boa e digna de um Stieg Larsson. No entanto, é palpável a diferença entre um e outro. Lagercrantz não tem o mesmo domínio do enredo, tampouco dos diálogos - um dos grandes problemas do livro - que se tornam absolutamente cansativos ao longo das 488 páginas. É uma construção tão simplória de diálogos entre os personagens que dá um ar de completo amadorismo da parte do autor em escrever um romance deste porte.

Isso vai enchendo o saco conforme a gente avança na leitura. O enredo é complicado inicialmente, com nomes demais, muitas características psicológicas inúteis de personagens sem importância e o pior de tudo: uma Lisbeth Salander que, apesar de se aproximar da Lisbeth das obras de Larsson, está longe daquela Lisbeth que conhecemos. Assim como Jogos Vorazes se tornou tudo o que a trilogia critica, Lisbeth virou também um produto capitalista, tudo o que Lisbeth nunca quis.

Isso destruiu a tentativa e qualquer boa intenção da parte da família Larsson. Era melhor ter deixado tudo como estava. E o final ainda deixa óbvio que terá uma continuação, pois nem tudo foi resolvido. Sério, parem.

Duas corujas. E só.

Título original: The Girl in the Spider's Web
Ano: 2015
Páginas: 488
Editora: Companhia das Letras

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A Garota da Biblioteca

Amor pelos livros, admiração pela cultura inútil e tendências ao burnout.

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